20-11-2017 - As igrejas católicas que se tornaram protestantes em segredo

No Império espanhol do século XVI, em plena Contrarreforma, grupos católicos praticavam o protestantismo mesmo com a ameaça da Inquisição.
Em outubro de 1517 Lutero reuniu as 95 teses contra o catolicismo na igreja de Wittenberg na Alemanha, um facto que mudou o curso da História e que completa agora 500 anos. A partir desse momento a Igreja cristã divide-se entre o mundo católico e o protestante ... A Espanha, o poderoso império católico da época, transformou-se no símbolo da reação da Igreja de Roma sintetizada na Contrarreforma, iniciada no Concílio de Trento. O que pouco se sabe, no entanto, é que o império que assumiu a tarefa de reavivar a fé católica no mundo, também teve os seus "hereges". E até mesmo uma Bíblia clandestina protestante em castelhano circulou pela Espanha da época.
Valladolid e Sevilha foram dois dos grandes focos de surgimento do protestantismo, primeiro com a curiosidade pelos livros de Erasmo de Roterdão, mais tarde incluídos no Índice de livros proibidos, e depois com o seguimento clandestino das doutrinas de Lutero e Calvino. As duas cidades eram à época as mais importantes do império. Valladolid era considerada a capital política, já que Madrid ainda não havia sido proclamada como sede permanente da corte. E Sevilha podia ser definida como a capital económica por controlar o monopólio comercial do Novo Mundo e ser a porta de entrada das riquezas das Índias. As duas cidades de ambiente cosmopolita, abertas aos novos horizontes e à reformulação do mundo conhecido, foram contagiadas pela febre reformista. O pensamento reformista espanhol foi muito influenciado por Erasmo, como afirmou Marcel Bataillon e mais tarde José Luis Abellán. Essa Espanha da Reforma desapareceu nas fogueiras do Santo Oficio como se nunca tivesse existido.
Esse protestantismo muito marcado pelo humanismo cristão contou com figuras como os irmãos Valdés, Francisco de Enzinas e o doutor Cazalla, que impulsiona o foco protestante em Valladolid. Em Sevilha Constantino Ponce de la Fuente, cónego magistral da Catedral e anteriormente capelão de Carlos V, pregava em uma igreja secreta criada na cidade e que recebia a presença de personagens da nobreza. Mas a igreja clandestina foi descoberta e Ponce de la Fuente foi preso com outros. Morreu na prisão do castelo de São Jorge em Triana, sede do Santo Ofício, mas os seus ossos foram desenterrados e queimados em um dos autos de fé realizados na cidade para extirpar a heresia protestante.
Em Sevilha o episódio reformista teve participantes muito singulares, já que todo um mosteiro católico esteve envolvido, o de San Isidoro del Campo, que praticou a Reforma em segredo. Existiu até um comércio de livros proibidos que entravam em Sevilha através de um tropeiro chamado Julianillo Hernández, que escondia os exemplares no fundo de odres de vinho que trazia de Borgonha. Um episódio herético que quatro anos mais tarde culminou em uma empreitada notável: a tradução completa pela primeira vez ao castelhano dos Livros Sagrados com a publicação da Bíblia do Urso, um texto que ainda hoje os protestantes de língua castelhana continuam utilizando.
A Bíblia do Urso, publicada em Basileia no ano de 1569, é forjada nessa Espanha convulsionada, mas profundamente influenciada pelas novas leituras, pela revolução que significou o humanismo cristão e pela consciência de que a luz do Renascimento deveria entrar nas doutrinas católicas, muito desacreditadas pelos casos de corrupção e o negócio das indulgências. Casiodoro de Reina é o grande protagonista dessa revolução espanhola. Casiodoro é o monge da Ordem de São Jerónimo que inicia a tradução da Bíblia no mosteiro sevilhano, apesar da Igreja Católica proibir a tradução às línguas românica e vulgares tal como fazia a Reforma protestante. Se Lutero traduziu a Bíblia ao alemão, os monges sevilhanos decidiram realizar o mesmo projeto na Espanha.
Não puderam. A Inquisição descobriu a heresia praticada no mosteiro de San Isidoro del Campo em Santiponce, em um monumental convento que ainda hoje se levanta diante das ruínas romanas de Itálica. Alguns monges conseguiram fugir, entre eles Casiodoro de Reina, mas outros foram presos no castelo de São Jorge para serem queimados em diversos autos de fé que acabaram com a semente da heresia protestante na Espanha.
Casiodoro de Reina e outros colegas – como Cipriano de Valera e Antonio del Corro, um dos primeiros britanistas – se estabeleceram na Europa reformada. Mais tarde, nessa Europa protestante, Casiodoro de Reina e Cipriano de Valera protagonizam a grande aventura da Reforma espanhola com a versão calvinista da Bíblia do Urso. Uma história que remete não só à religião, mas a um episódio da História da Cultura europeia. A história de espanhóis esquecidos e perseguidos pelo seu humanismo heterodoxo, por pensarem e se atreverem a ler o proibido e seguir o espírito de seu tempo: o Renascimento clássico na época das intolerâncias religiosas.
- in El País
Em Portugal:
Em Portugal a Reforma Protestante não teve grandes repercussões e ficou muito aquém do que se verificou em outros países europeus. Talvez o distanciamento de Portugal relativamente à Alemanha tenha contribuído para a fraca difusão do “luteranismo”, essencialmente levado a cabo por um restrito número de intelectuais que muito discretamente o faziam.
O grande escritor Damião de Góis integrou a corte de D.Manuel I desde os 16 anos, convivendo com grandes personalidades, marinheiros, navegadores, diplomatas. Amigo de D. João III (mesma idade) e de D. Henrique. D. João III nomeou-o escrivão da feitoria da Flandres. Em Antuérpia aprendeu Latim e conviveu com personalidades destacadas da Europa. Estudou na universidade de Lovaina e relacionou-se com Erasmo, Melanchton e Lutero.
Afetado pelo que aprendeu, escreveu obras que foram apreendidas pelo chamado “santo” ofício. Apesar da proximidade do rei o confessor deste tinha dele inveja e denunciou-o. D. Henrique nomeou-o Guarda-mor da Torre do Tombo e pede-lhe que escreva uma crónica do seu pai, rei D. Manuel I.
Até o genro o traiu. Foi parar às masmorras.
Acusavam-no de que na sua casa comiam e bebiam estrangeiros, e cantavam coisas que não se entendiam. Foi condenado a prisão perpétua no Mosteiro da Batalha. Apareceu misteriosamente morto na sua casa em Alenquer em 30 JAN 1754 sem qualquer explicação. Quando as suas ossadas foram exumadas em 1941 descobriu-se que fora vítima de homicídio.
Eduardo Moreira escreveu; "Longe vae o tempo em que mestre Damião de Goes reunia os seus amigos flamengos, n’uma casita ali para os lados da Costa do Castello, e uma vez lá, se tangia orgão e se entoavam os coraes da Reforma, ou quando Fernão de Oliveira, o gramatico illustre, expandia pelas boticas da rua d’El rei os rumores d’uma alma franca, despertada em successivas viagens ás terras d’Além-Mancha"
Traduziu o Livro de Eclesiastes – uma das raríssimas traduções feitas para português no Séc. XVI de um livro da Bíblia. Só cerca de 100 anos depois aparece Almeida com a sua tradução da Bíblia em português (a primeira). Esta obra surgiu 21 anos depois da Reforma de Lutero e 4 anos depois da Bíblia de Lutero.
Em 2002 a Fundação Calouste Gulbenkian editou esta obra. A obra estava desaparecida, mas em abril de 2000 um professor inglês (T. F. Earl) de estudos portugueses da universidade de Oxford, descobriu a obra em Codrington, na Biblioteca de All Souls College.
Se soubermos que a leitura da Bíblia na Contra-reforma não era bem vista, e mesmo proibida, percebemos o porquê deste desaparecimento.




