29-07-10 - James Dobson dá entrevista centralizada no sexo feminino
O ex-presidente do ministério Focus on the Family, James Dobson diz que educar raparigas é mais difícil hojeJá se foi o tempo em que havia um sexo frágil. Nesta era da modernidade, homens e mulheres, meninos e meninas, rapazes e raparigas estão cada vez mais parecidos em termos comportamentais. E o pior é que as garotas estão a reproduzir atitudes antes restritas ao universo dos rapazes, como a agressividade, a impetuosidade sexual e o abuso no uso do álcool. Por isso mesmo, especialistas como o pastor e educador Cristão James Dobson andam preocupados. Tendo dedicado a sua vida à família – não apenas à sua própria, mas no sentido mais amplo do termo, a ponto de fazer disso seu ministério –, ele tem muito o que ensinar. E a aprender, também. Tanto, que se diz cada vez mais surpreso com o comportamento das garotas. “Em idade escolar, muitas já usam roupas provocantes, colocam piercings e envolvem-se com álcool e drogas”, diz. Basta olhar à volta para perceber como tem razão.
CHRISTIANITY TODAY – O senhor educou sua filha há 30 anos. De lá para cá, a família e a sociedade mudaram muito. Os princípios daquele tempo ainda têm validade hoje?
JAMES DOBSON – É surpreendente que, se voltarmos 40 anos atrás, ao tempo em escrevi Dare to Discipline [Ousar Disciplinar], e analisarmos aqueles princípios hoje, veremos que ainda estão em voga. O livro saiu em 1970, ainda durante a Guerra do Vietname, no meio de uma cultura em rebeldia. Eu não mudei as minhas convicções, porque elas mantêm raízes em princípios morais e nas Escrituras, de modo que são eternas. Não quero dizer que detenho a verdade de Deus; mas elejo minhas ideias e princípios a partir desse fundamento.
O surgimento do feminismo tornou mais difícil a educação das meninas para os pais?
Nunca houve um momento em que foi fácil criar os filhos, mas hoje é mais difícil. As raparigas de hoje são muito experientes se as compararmos com a geração das suas avós. A cultura mudou totalmente. As raparigas estão a crescer muito rápido. As influências exercidas pela indústria da moda e do entretenimento são muito grandes. Recentemente, um fabricante de roupas lançou biquínis com sutiãs acolchoados para meninas com 7 anos de idade. Em idade escolar, muitas já usam roupas provocantes, colocam piercings e envolvem-se com álcool e drogas. Elas já igualam os rapazes no consumo exagerado do álcool e há um nível elevado de violência entre elas. Isso impulsiona-as muito cedo para uma experiência adolescente e indu-las a pensar sobre sexualidade em idade precoce, criando uma enorme pressão.
No seu livro, o senhor escreve sobre mulheres famosas que dizem lutar com a auto-estima. No entanto, estamos numa cultura que também promove material de auto-ajuda. Como estimular alguém a manter a auto-estima elevada sem resvalar no narcisismo?
A minha preocupação é o modelo que a indústria do entretenimento impõe. Vivemos num sistema de valor que mede o ser humano a partir da beleza. Meninas na sua adolescência, no ensino médio, estão a atravessar a puberdade, e essa fase traz naturalmente acnes e corpos desengonçados. Mas elas olham para modelos como Britney Spears, Paris Hilton e Lindsay Lohan. Se ousarem estar um pouco acima do peso – não muito, mas apenas levemente acima –, ouvem falar disso o dia todo. Isso entristece o coração e a dignidade de uma garota que só quer ser uma princesa e ser amada por alguém. Se o pai não está envolvido com esta situação, se ele não a aceita, não a ama, não diz que ela é bonita e não põe o braço em torno dela, se não lhe dá atenção, muitas vezes ela olha para outro lado. A única coisa que terá a oferecer é a sua sexualidade e pensará que, usando-a como forma de atracção, será amada.
Existem estereótipos nocivos e que não deveriam ser reforçados?
Sim. Nos últimos anos – e talvez isto seja um produto do movimento feminista –, as raparigas têm sentido a necessidade de imitar os rapazes, mesmo os rapazes predadores. Eles são resistentes, grosseiros, brutos, profanos e sexualmente agressivos. Muitas vezes, as garotas são as únicas a tomar a iniciativa em direcção aos rapazes, o que tira a necessidade destes de serem os iniciadores. Tal característica tem extrapolado esse movimento relacionado com alguns ideais feministas que são prejudiciais às raparigas. Elas são mais vulneráveis, ferem-se mais facilmente e são sensíveis de muitas maneiras. Por isso, é tão importante que os pais orientem as suas filhas, construindo a compreensão da sua identidade e ajudando-as a lidar com a cultura.
Como sugere que os pais lidem com as actividades dos seus filhos em sites de relacionamento como o Facebook e o Twitter?
Os pais têm que conhecer a tecnologia que os seus filhos estão a usar. A pornografia está generalizada e os pais precisam de acompanhar os processos virtuais que a trazem para dentro de casa, e assim proteger os seus filhos. Essa é uma tarefa difícil, porque as crianças estão à frente deles. Os pais, muitas vezes, têm carreiras extremamente exigentes e, quando chegam a casa, não possuem mais nada a oferecer. É por isso que digo que a cultura, muitas vezes, leva-nos para o inferno.
Se a sua filha mostrasse dons de liderança e de ministério, o senhor incentivá-la-ia?
Gostaria de incentivá-la a usar todos os dons que Deus lhe dá. Você pode tirar a conclusão – a qual eu não defendo no meu livro – de que as mulheres precisam estar presas a um papel restrito, que não podem ser criativas e não podem ser líderes. Isso é ridículo. Mas é importante que as raparigas saibam o que significa ser mulher. Homens e mulheres são únicos e diferentes, porque os seus cérebros são diferentes. Não existe uma limitação para as meninas. A minha avó era muito forte, e assim também foi a minha mãe. Mas elas também sabiam o que significava ser mulher e esposa, e foram muito bem sucedidas nisso.
O que o senhor vê como a próxima área de tensão entre homens e mulheres na nossa cultura?
Acho que será mais do mesmo. Infelizmente, isso provavelmente significa a contínua deterioração da família. Quando a família está em desordem, as crianças sofrem. Haverá provavelmente mais divórcios, mais mães e pais solteiros. Não estamos a caminhar numa direcção saudável. A nossa cultura está a mover-se em direcção a uma maior expressão sexual. É claro que a internet, com sua pornografia e as suas influências, ficará muito difícil de controlar. Precisamos de oração e de dedicação aos filhos para ajudá-los a passar por tudo isso.
Depois de tanto tempo, o senhor estava pronto para sair de Focus on the Family?
Sim e não. Fiquei lá durante 33 anos. Eu era o fundador, o director, o presidente… Enfim, coloquei a minha vida naquele ministério. Passamos de uma sala com um secretário de meio expediente em 1977 para uma entidade com 1,4 mil funcionários e um ministério internacional que alcançava 220 milhões de pessoas todos os dias. É difícil afastar-se de algo assim. Mas, tudo tem uma vida útil, e tudo chega ao fim. Os fundadores e presidentes geralmente permanecem nos seus postos até morrer nas suas cadeiras porque pensam que a geração mais jovem não tem a preparação necessária. Em 2001, senti que o Senhor queria que eu deixasse de ser presidente. Foi algo difícil de fazer, mas eu sabia que a Sua mão estava-me a sustentar. Chorei por três ou quatro semanas e, no último dia, chorei o tempo todo. As pessoas eram muito boas connosco, mas era hora de ir. Estou com saúde, tenho muita energia e ainda muito que dizer.
E o que é que o senhor está a fazer agora?
Iniciámos este novo ministério, chamado Family Talk [“Conversa de família”], o qual está a crescer muito. É como se eu tivesse voltado a 1977 e começado de novo! Há quem pense que há uma competição entre este trabalho e o de Focus. É uma tolice pensar que as famílias em todo o país e no mundo, com todos os seus problemas, necessitam apenas de um ministério. Há muito trabalho a ser feito. A nossa competição não é maior do que a de duas igrejas baptistas em Atlanta. Não estamos a tentar magoar-nos uns aos outros, ferir-nos uns aos outros, ou passarmos por cima uns dos outros. Isso não deve acontecer.
Que legado James Dobson vai deixar?
O meu legado não importa. Não me importa que eu seja lembrado. É importante que, quando eu estiver diante do Senhor, ele me diga: “Muito bem, servo bom e fiel”. Eu quero terminar forte. Não quero cometer um erro que possa prejudicar a causa de Cristo no fim da minha vida. Assim, farei tudo o que puder para trazer muitos para Cristo. Se Ele puder me usar nesse sentido, este sim, será o meu maior legado.




