22-08-11 - As posições opostas de Freud e Lewis sobre a morte
Quando o seu colega Ernest Jones perdeu a sua filha única, Freud escreveu-lhe uma carta dizendo: “Como fatalista incrédulo que sou, só posso mergulhar num estado de resignação, quando encaro o horror da morte.” Ele lembrou a Jones que, quando o seu neto Heinele morreu, ele mesmo havia perdido toda a vontade de viver: “Eu passei a ficar constantemente cansado da vida.” Freud parecia estar agudamente consciente da sua falta de recursos espirituais para persistir em tempos de crise. Depois da morte da sua filha Sophie, escreveu a um colega: “Não sei o que mais há para se dizer. Trata-se de um evento tão paralisante, que não se consegue pensar em mais nada depois, quando não se é crente...” Freud interrogava-se “quando é que virá a minha vez”, e desejava que a sua vida terminasse rápidamente. [p. 227] Freud encerra o seu ensaio sobre guerra e morte com uma curiosa sugestão: “Se quiser suportar a vida, prepare-se para a morte.” Freud deu-se conta do que muitos psiquiatras já observavam há muito: para viver plenamente, é preciso dar uma solução ao problema da morte. Se o deixarmos sem solução, gastamos energia demais em negá-lo, ou ficamos obcecados por ele. Freud não deixa dúvidas de como ele tratava o problema. Tornou-se obcecado pela morte, [além de] ser extraordinariamente temeroso e supersticioso em relação a ela. Freud sonhava o tempo todo com a morte. [p. 231, 232].
C. S. Lewis [em idade avançada e já viúvo] escreveu uma carta na tentativa de consolar uma pessoa gravemente doente: “Será que não consegue encarar a morte como um amigo e libertador? Ela nada mais significa do que poder despir-se daquele corpo que a está a atormentar: é como tirar um chapéu ou sair de um calabouço. O que há de assustador nisso?... Esse mundo teria sido tão bom para si, que o deixa com tanta tristeza?” Lewis procura então confortá-la com palavras que revelam os seus próprios pensamentos e sentimentos relativos à sua morte: “Há pela frente coisas melhores do que qualquer uma que deixamos para trás... Acredite, o Nosso Senhor não está a dizer-lhe nada mais do que: ‘Paz, filhinha, paz. Relaxa. Deixa-te estar. Os braços sempiternos estão bem debaixo de ti... Confias tão pouco em Mim?’ É claro que este pode não ser o fim. Por isso faz um bom ensaio.” Lewis assinou essa carta com: “Seu (viajante cansado e, como você, perto do fim da jornada) Jack.” [p. 249]
Em Junho de 1961, Lewis, que já sofria de males na próstata, teve uma obstrução urinária, infecção nos rins e acabou contraindo uma toxemia com sintomas cardíacos. Melhorou nos meses seguintes e continuou a dar aulas, escrevendo e visitando os amigos. Em 15 de Julho de 1963, Lewis teve um ataque cardíaco e entrou em coma. Recuperou, mas foi por pouco tempo, passando a viver de forma tranquila e feliz nos meses seguintes. A um amigo ele escreveu: “Recuperei de forma surpreendente de um longo coma, e quem sabe as orações incessantes dos meus amigos tenham provocado isso – mas aquela teria sido uma passagem bastante fácil, a ponto de eu lamentar o facto de a porta ter sido batida na minha cara... Quando morrer... não deixe de me procurar... Tudo isso foi muito divertido – uma diversão solene –, não é?” [p. 249, 250]
Como Lewis ou qualquer outro poderia estar assim tão “preparado” para a morte, a ponto de encará-la não só com alegria, calma e paz interior, mas com uma verdadeira expectativa? Não teria sido a sua visão do mundo que lhe forneceeu os recursos necessários para tanto? Quem sabe possamos encontrar a resposta mais uma vez nas suas próprias palavras: “Se cremos de facto no que dizemos crer – se cremos que a nossa casa de facto não é aqui –, qual é o problema de se ter a expectativa da chegada?” [p. 252]
C. S. Lewis e Freud debatem Deus, amor, sexo e o sentido da vida. Ed. Ultimato).
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