Os Dons Sinais Sobrenaturais do Período dos Actos - Segues na direcção correcta? (VIII)

Paul Sadler

MILAGRES

     “E a outro a operação de maravilhas [ou, milagres]” (1 Cor. 12:10).

     Foi durante o ministério pós-ressurreição do Senhor que Ele escolheu dispensar o capítulo final da Grande Comissão aos discípulos. Isso incluiu um número de declarações impressionantes: “E estes sinais seguirão aos que crerem: … Pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum”.

     Estas duas facetas da comissão têm inquietado tanto os comentaristas que eles alegam que os versículos finais do Evangelho de Marcos foram fraudulentamente inseridos no texto; portanto, há razão para questionar a sua genuinidade. Todavia, não existe nada que sustente tal clamor.

     Embora seja verdade que os manuscritos Sinaiticus e Vaticanus não contenham os últimos doze versículos do Evangelho Segundo Marcos, é geralmente aceite haver provas de que estes manuscritos estão corrompidos. Tentar remover cirurgicamente estas passagens para meramente contornar uma secção controversa não resolve o problema, porque os dons sinais são claramente ensinados nos outros Evangelhos (Mat. 10:6-10; cf. Lucas 10:19).

     Nós cremos firmemente que estas instruções antes da partida do Senhor foram incluídas no texto bíblico original. O problema não é textual; é antes uma falha destes mesmos comentaristas manejarem bem a Palavra da verdade.

     Há pouco tempo atrás, uma história foi publicada numa revista nacional sobre as “práticas religiosas” de uma igreja do chamado Evangelho-Pleno, no sul. Esta assembleia particular cria que se podia pegar em serpentes, com base no Evangelho de Marcos. É claro que quando o entrevistador questionou a sabedoria de tal prática, o pastor abriu a Bíblia e apontou para o texto em Marcos, dizendo: “Mas é isto que a Palavra de Deus diz aqui, e eu creio”.

     A revista estava a fazer a entrevista porque um dos membros da pequena congregação tinha sido mordido por uma cobra-cascavel e morreu. Um outro membro também foi mordido e estava em casa com suores frios provocados por uma febre elevada, tendo esperança de sobreviver. O entrevistador foi rápido a questionar, citando a Bíblia, “não lhes fará dano algum”? A isso o pastor respondeu: “Aparentemente, eles não tiveram fé suficiente.”

     Amado, os dons sinais do período dos Actos não estavam dependentes de espiritualidade ou da falta dela; eram realizados em cumprimento dos planos e propósitos de Deus na altura. Este é um bom exemplo de que é possível estar-se biblicamente correcto, mas dispensacionalmente, fatalmente (literalmente, neste caso) errado.

     Depois de abordar estes dois casos sensíveis na sua assembleia, um pastor do sul dá o seu contributo humorista ao recusar pegar em serpentes, não na base de Marcos 16, mas de Génesis 3:14,15.

     “Eu quase resignei umas semanas depois quando me prestava a levantar da secretária para deixar o gabinete, e entre mim e a porta estava uma cobra venenosa. Convém explicar que estamos situados exactamente no meio da cidade. A igreja dispõe de um bonito gabinete moderno, totalmente alcatifado, com computador, funcional. O que estava uma cobra a fazer no meu gabinete?

     “Ao subir para cima da minha secretária, reflecti sobre as Escrituras e depressa tomei consciência que elas me davam uma direcção muito mais clara sobre como tratar uma serpente do que pulgas e piolhos. Eu dominá-la-ia. Nada de doutrinas não-essenciais desta vez; este rapaz tinha de avançar. Estou ciente de que a Versão da Bíblia King James diz que podemos pegar em serpentes, mas a minha Nova Versão Internacional (NIV) diz que os dois manuscritos mais antigos deixam essa passagem de fora [Ver a Página 28]. Eu decidi tomar a posição académica e seguir a NIV. Eu sei que ambas as versões dizem que a semente da mulher esmagaria a cabeça da serpente, e foi isso que fiz.

     “Não tencionando, de modo algum, esvaziar o significado profético destes versículos, obedeci-lhes à letra. De cima da secretária, agarrei numa grande Concordância e atirei-a sobre a serpente. Isso entonteceu-a o tempo suficiente para me permitir saltar e pisá-la com a perna da cadeira. Depois, colocando-me sobre a cadeira, continuei a esmagar a cabeça dela com repetidos golpes da Concordância. Quando o trabalho estava praticamente concluído, atirei-a para fora do edifício, para a escuridão.

     “Espero não ter mais pragas tão cedo, mas quando me sento aqui a olhar para a contra-capa danificada da minha Concordância, interrogo-me se tenho estado a manejar bem a Palavra da verdade.” 1

     Há uma boa razão para crer que os que realizavam a operação de milagres não faziam cultos específicos de pegar em serpentes. Se os que os que estavam a levar a cabo a Grande Comissão tropeçassem acidentalmente com uma cobra venenosa, tinham para si a seguinte promessa: “Eis que vos dou poder para pisar serpentes e escorpiões, e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano algum” (Lucas 10:19).

     Suponhamos que uma criança se deparasse com uma víbora mortal; os que possuíam o dom de milagres podiam pegar nela sem sofrer qualquer dano, mesmo que inesperadamente fossem mordidos. Em resumo, a operação de milagres nunca foi para ser um evento de palco ou de exibicionismo. Isto podia ser dito sobre todos os dons sinais relativamente a esta matéria.

     Em Melita, Paulo não pegou no réptil venenoso que saiu da fogueira e disse aos que estavam ali presentes, “Uau! A cobra mordeu-me, mas eu tenho o dom de milagres, de modo que não me acontecerá mal nenhum.” Paulo foi simplesmente surpreendido, como os que estavam com ele naquele dia, quando a serpente venenosa lhe acometeu a mão.

     “E os bárbaros, vendo-lhe a bicha pendurada na mão, diziam uns aos outros: Certamente este homem é homicida, visto como, escapando do mar, a Justiça não o deixa viver. Mas, sacudindo ele a bicha no fogo, não padeceu nenhum mal. E eles esperavam que viesse a inchar ou a cair morto de repente; mas tendo esperado já muito, e vendo que nenhum incómodo lhe sobrevinha, mudando de parecer, diziam que era um deus” (Actos 28:4-6).

     Esta manifestação miraculosa, juntamente com outros sinais que Paulo realizou, dava a credibilidade de que o seu apostolado vinha, de facto, de Deus. Os sinais de apóstolo confirmavam que ele era o porta-voz autorizado de Deus (2 Cor. 12:11,12). Nós devemos acrescentar que, por vezes, a operação de milagres trazia consigo o prenúncio de juízo.  Isto foi claríssimo para Barjesus, que procurou desviar Sérgio Paulo da fé. Paulo desmascarou este inimigo da justiça e provocou-lhe uma cegueira por algum tempo (Actos 13:6-11).

     A frase “e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum” também deve ser compreendida no contexto do ministério diário. Isto também, estava sob a alçada da operação de milagres, mas não significava que os que recebiam este dom bebiam propositadamente veneno para testarem o Senhor. Não era raro os crentes encontrarem-se em situações ameaçadoras no início da Igreja. Eles viviam constantemente diante de verdadeiros perigos. As ameaças que eram feitas contra eles não eram histórias infundadas (Acros 4:21; 5:40; 12:1-4; 23:12-22). Portanto não é irrazoável concluir que os envenenamentos pertenciam ao reino da possibilidade.

     “Então era eu [Neemias] copeiro do rei. Sucedeu pois no mês de Nisã, no ano vigésimo do rei Artaxerxes, que estava posto vinho diante dele e eu tomei o vinho, e o dei ao rei; porém nunca antes estivera triste diante dele” (Neem. 1:11-2:1).

     Nós notamos que mesmo os antigos reis tomavam medidas de precaução no que dizia respeito a envenenamentos. Era um meio útil para uma pessoa se ver livre de um inimigo. Assim o copeiro era mais do que alguém que meramente trazia ao rei o seu cálice de vinho. Ele bebia primeiro do cálice para certificação de que ninguém tinha envenenado o vinho. O conceito era, que morra o copeiro, mas haja vida longa para o rei.

     Se os que levavam o Evangelho fossem propositadamente envenenados para serem silenciados, ou se acidentalmente bebessem algo que fosse obviamente mortal, nenhum dano sobreviria sobre eles. Este particular dom sinal permitia, aos que o possuíam, escapar a situações de potencial ameaça de vida, para a glória de Deus.

1 David Carson é pastor na Plymouth Christian Church, em Raleigh, Carolina do Norte, EUA.

 

- Paul M. Sadler
(Continua)

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