Ilustrações da Verdade Bíblica (XLVIII)

Por H. A. Ironside
“Estou a divertir-me imenso”
“… a que vive em deleites, vivendo está morta” (I Tim. 5:6).
Há alguns anos atrás, eu estava a pregar Cristo como o remédio de Deus para a condição arruinada do homem, à população resistente de uma bela cidade mineira nas regiões montanhosas do norte da Califórnia. Uma tarde, eu notei, no salão de reuniões, uma jovem cujo face trazia a marca do pecado, olhar cansado e aspeto negligente, de tal modo que não poderia deixar de chamar a atenção.
Passando por ela no fim, perguntei: "Como está a sua alma? Alguma vez pensou em preparar-se para a eternidade?"
"A minha alma?- Eu não tenho nenhuma alma", foi a resposta irreverente, acompanhada de uma risada tola. A conversa que se seguiu pareceu não causar-lhe qualquer impressão, pois, depois de solenemente a alertar para o juízo vindouro, ela exclamou: "Não me mete medo com a religião. Será que eu não tenho boa aparência ao juntar-me a vocês, amigos? Eu estou a divertir-me imenso."
"Mas quando esta onda passar, quando a chamada diversão tiver desaparecido para sempre, quando tiver de enfrentar a morte, o juízo, e a eternidade, quando tiver de se encontrar com Deus, o que dirá então?"
"Oh, bem, é claro que eu não pretendo viver assim o tempo todo. Vou agarrar-me á religião quando envelhecer. Não tenho tempo para isso agora."
"Sim; é assim que o diabo tem enganado milhares de pessoas, mas pode morrer antes de envelhecer. Pode não ter tempo para se preparar para a eternidade, apesar de ter tempo para morrer.
Este aviso foi acolhido com outra risada e ela foi-se embora. Parecia quase impossível que uma pessoa tão jovem pudesse ser tão dura. Foi-me dito que ela havia-se entregue a uma vida extremamente iníqua, apesar de ser pouco mais do que uma criança, sendo uma excluída da sociedade respeitável. Ah, como o pecado degrada, endurece, e cega as suas pobres vítimas!
Umas semanas após a conversa atrás, um agente funerário veio à casa onde eu estava hospedado; ele disse-me que tinha que realizar um funeral que era uma fonte de grande embaraço para ele. A pessoa a ser enterrada era uma jovem de uma tão má reputação que ele mal podia persuadir alguém a carregar o féretro. Mencionando o nome dela, ele perguntou se sabíamos de alguém que pudesse prestar-lhe este último serviço. Nós prontamente nos oferecemos. Isso resolveu o problema. Alguns ex-companheiros da sua loucura entretanto prometeram levar o caixão.
Tratava-se da garota com quem eu tinha tão falado recentemente, ceifada num momento - "quebrantada de repente sem que haja cura." Dois dias antes, depois de um feriado público despendido de forma revoltante, foi levada para casa bêbada e colocada numa cama, da qual nunca se levantou. Em poucas horas, ela tinha passado para a eternidade, tendo morrido em grande agonia dos efeitos nefastos da sua longa devassidão. A taça de vinho e seus acompanhamentos tinham reivindicado mais uma vítima.
Era terrível a visão do seu rosto pálido, inchado. Um ministro tinha sido chamado, mas o que poderia ele dizer? Que conforto poderia ele dar? Até de arrependimento no leito de morte ele não podia falar - nenhuma esperança ele poderia oferecer para que ela afinal pudesse ser salva. A mãe perguntou-lhe se ela queria que alguém viesse orar com ela. "Não," ela disse, "ninguém". "Não consegues lembrar-te de uma oração, então, para proferir - a oração do Pai-Nosso, ou qualquer outra?" "Não, não consigo"; e em vez de oração proferiu blasfémias e gemidos de angústia. "Ela viveu a vida dela", disse o ministro, "Não vou falar disso, pois agora não pode ser alterada. Vós ainda tendes a vossa vida. Falo-vos então a vós", e ele fielmente exortou-os a escaparem para Cristo onde somente encontrariam refúgio.
Quando ajudei a baixar o caixão à sepultura, o meu coração estava triste. Quando me afastei, ouvi alguns exclamarem baixinho, "Só penso nisto: apenas dezassete anos, e foi para o …" A última palavra perdeu-se no ruído à minha volta, ou talvez nunca tivesse sido proferida.
- Continua



